12.2.07

Prédica

Prédica no culto de 11 de fevereiro de 2007, 6º domingo após a festa de Epifania : Lucas 6, 17 – 26. Com a prédica de hoje vou contra tudo e contra todos. De uma maneira geral, os teólogos e estudiosos que escreveram sobre este texto refletem sobre a questão do conflito entre os pobres e os ricos. Uns dizem que ser rico é sinal da benção de Deus e outros que os pobres são os preferidos de Deus. Na minha maneira de entender, não se deve entender aqui as palavras rico e pobre no sentido material, nem no sentido espiritual de Mateus (que ressalta, neste mesmo contexto, os pobres de espírito). Eu analisei o texto anterior ao nosso, onde se relata que muitas pessoas procuravam Jesus... para serem curadas. Não estavam nem aí para a pessoa de Jesus, seu projeto de vida e salvação. Queriam alguma coisa dele e se mandar para casa, para os amigos. Era mesmo muito difícil entender o que Jesus queria, quem Ele era, pois ainda não havia morrido e ressuscitado. Só poucos vislumbraram a integridade de sua pregação, o alcance de sua visão. Os versículos anteriores relatam que Jesus tinha estado com os discípulos numa montanha e desceu para uma planície. Lá ele curou muitas pessoas que se aproximavam queixosas e chorosas, pedindo, insistindo, exigindo, clamando por uma solução. Muitos nem falavam com ele. Queriam só tocar nele para serem curados (v. 19) Mas, não é difícil imaginar que depois de um tempo ele tenha perdido a paciência com esse pessoal que só queria o peixe e não aprender a pescar. É claro que ele poderia ter curado a todos, mas não era este o propósito de sua existência. Mesmo que ele curasse todas as pessoas com quem tivesse entrado em contato em toda a sua vida, não curaria a todos e, se tivesse curado, o que seria das pessoas que viveram antes e depois dele? Da mesma forma, essas pessoas curadas voltaram a ter doenças se retornaram à situação que as deixou enfermas: falta de saneamento, falta de alimentação adequada, falta de carinho ou de atenção (tudo isso deixa uma pessoa doente... ). E mais um aspecto deve ser levantado com relação às causas das doenças. De que adianta curar um atrás do outro numa ponta, se na outra são produzidos duas, três vezes mais doentes? Então, Jesus olha para isso e se irrita. E faz os comentários que compõe nosso texto de pregação: felizes são os pobres, ou seja, as pessoas de qualquer classe social que enxergam na fé mais do que um benefício imediato. Eles estão com o Reino de Deus na cabeça. Um reino que não se limita a receber algo, virar as costas e ir embora. Quero deixar bem claro, que as curas são necessárias e que Jesus certamente se alegrava em poder realizá-las. E queria que os discípulos e nós também as fizéssemos. Jesus também diz que felizes são os que choram, ou seja, os que não tem a cura imediata, a resposta instantânea para seus males e mazelas. Ficar firme na fé, na convicção de que a pregação de Jesus abrange a vida do começo ao fim, não só alguns momentos, isso é motivo de riso de satisfação. A partir do batismo nós estamos nas mãos de Deus, por Jesus Cristo. Toda nossa vida está nas mãos de Deus. Os bons e os maus momentos. Desde a mais remota infância, até o último suspiro. Não sabemos o que aconteceu com as pessoas que foram curadas e não ouviram a palavra, não seguiram os ensinamentos de Jesus. A descrição destas pessoas está registrada com a palavra ricos. Pessoas que se contentam com a superfície, com a mediocridade. Se me permitem uma expressão popular, o que nós chamamos de “cachorro magro”, que come e vai embora. Os chamados ricos, já tiveram sua alegria. Conseguiram a cura imediata, a satisfação passageira de sua necessidade, mas perderam o “bonde da história”. Os que têm tudo que queriam para um momento, ficam cheios, fartos, inchados..., de ilusão, de aparência, de coisas passageiras. Que vivem se elogiando como são crentes, quantos sinais de fé fazem ou fizeram, mas que não superam o mundo restrito e pequeno do individualismo. Deixaram de ingressar no mundo maravilhoso da comunidade de Jesus. Uma comunidade de gente imperfeita, sofredora, incoerente, mas que não perde de vista o todo, a abrangência maior da mensagem de Jesus Cristo. E por isso fica fiel, unida, e assim atravessa os desertos da vida. Não significa, no entanto, que Jesus exclui os (que chama de) ricos do seu projeto,. Nem significa que privilegia os que chama de pobres. Só porque os “pobres” tem mais capacidade, mais sensibilidade, enxergam e vivem a fé de uma forma mais completa, abrangente, não significa que tem qualquer vantagem. Rigorosamente todas as pessoas tem iguais direitos diante de Deus; o amor de Deus não é seletivo – ele alcança todas as pessoas na medida certa. A questão é, como percebemos esta justiça divina e seu amor incompreensível. E nisso devemos nos ajudar mutuamente, permanentemente, nos aconselhar uns aos outros, incentivar para buscar na Palavra de Deus a verdade que liberta. Para que ninguém se sinta só, ou abandonado/a. Por isso, se alguém aqui hoje de manhã está pensando a que grupo pertence, ao dos ricos ou ao dos pobres, melhor seria pensar que pertence aos dois. Às vezes a gente está plenamente inserido na comunidade de Jesus, ... Às vezes a extrema necessidade nos leva a tomar atitudes dos chamados ricos. Esta é a nossa situação humana. No entanto, nem um, nem outro nos condena, nem nos absolve. A graça de Deus nos busca, nos encontra e nos resgata; e nos concede verdadeira cura e alegre inserção na comunidade de pessoas que vivem a mesma situação. Vivamos nesta fé e nesta confiança. Amém. "E a paz de Deus, que excede nossa capacidade de entender e compreender, guarde o teu coração por Cristo Jesus". Amém. _________________________________________________ Textos bíblicos para o próximo domingo, dia 18 de fevereiro, último após Epifania: (Prédica): Lucas 9, 28-36 (37-43). AT: Êxodo 34, 28-35. Salmo 99. Carta: II Coríntios, 3, 12-42

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