25.2.07
Prédica de 25 de fevereiro de 07
Prédica:
(Rm 10. 8b-13)
“A graça do nosso Senhor Jesus Cristo, o amor que é como de um Pai/de uma mãe, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos nós. Amém”.
Prezada Comunidade hoje aqui reunida,
Depois de várias semanas refletindo sobre a revelação/epifania de Deus em Jesus Cristo a partir de textos do evangelista Lucas, entramos na Quaresma com um texto de difícil compreensão. O que está por trás das palavras lidas em Romanos 10. 5b-13 é uma pergunta bem complicada: - e os judeus? Vão alcançar a salvação se não se tornarem cristãos? As pessoas que ouviam sua pregação a respeito da justificação por graça e fé em Jesus Cristo. Justificadamente trazem esta pergunta.
Aparentemente a resposta é simples: não! Mas, então vêm as outras perguntas, tais como: o povo de Israel recebeu a promessa de Deus; será que Deus voltou atrás? Deus volta atrás em suas promessas? Então podemos deduzir que Deus mentiu uma vez? Deus não é sempre fiel às suas promessas? Então a promessa de salvação em Jesus Cristo um dia também poderá ser retirada? Deus pode dizer: -mudei de idéia, agora é o pastor Carlos que salva!
Todos estes questionamentos são feitos constantemente ao apóstolo Paulo e ele já indica para estas perguntas no capítulo 3 de sua carta aos romanos (ler de 1 a 4). Para Paulo a resposta é clara e simples: sim, os judeus vão alcançar a salvação, mesmo os que não se tornarem cristãos. Mas, ele não diz isso de forma tão abrupta e usa três capítulos para explicar esta questão: do capítulo 9 ao capítulo 11. Nosso texto de hoje é uma parte do capítulo 10.
Nos capítulos em questão, Paulo defende um posicionamento que tem servido de pedra de tropeço para muitas gerações de cristãos. Paulo responde com uma ousadia fora do comum e com muita clareza: Jesus Cristo é o único senhor e salvador para os cristãos!!! Para os judeus é diferente. Para eles valem as promessas que Deus fez desde o tempo de Abraão. Deus não retira suas promessas, nem volta atrás, nem mentiu quando as proclamou. Para os judeus vale a promessa de salvação a partir da Lei, do seguir as ordens da Lei. É claro que Paulo vê tudo isso com pesar e tristeza, pois gostaria que todas as pessoas, de todos os povos vivessem como cristãos, mas ele tem que reconhecer que isso não é assim.
O que aumenta nossa responsabilidade e a necessidade de conhecermos bem o conteúdo da fé cristã. Nós, cristãos, não temos a necessidade, nem o direito de pregar ou de buscar uma salvação pela Lei ou por qualquer outro meio. Nós ouvimos o evangelho, fomos batizados em Cristo, fomos tornados nova criatura, as coisas velhas passaram. Se não são velhas nem passadas para os judeus, com quem Deus tem uma relação diferente, isso não significa que devemos relaxar e dizer, bom, então vale tudo!!! Pelo contrário, significa que devemos conhecer sempre melhor o que está no coração e confessamos pela boca.
Para nós vale que aceitar a salvação pela fé em Jesus Cristo não é obrigação a ser cumprida, mas liberdade conquistada por Jesus Cristo na cruz. Como diz o apostolo Paulo no v. 4 “porque o fim da Lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê”. Aqui devemos entender a palavra “fim” não como término, mas como objetivo, meta a ser alcançada (em alemão: não é Ende, mas Ziel).
Agora, talvez fica mais claro o que expliquei no início da reunião do Conselho Paroquial na semana passada, a respeito dos 3 usos da Lei para a fé. Na sociedade, a Lei é usada para fazer justiça. Quando alguém comete um crime, a gente quer que seja julgado e condenado de acordo com a lei. Seja para pagar por seu crime, seja para proteger a sociedade desta pessoa criminosa. Este é o conceito de lei que temos e no qual está baseada nossa idéia de justiça.
No entanto, com relação á fé cristã, é bem diferente. Para nós, a Lei não pode realizar a justiça, a justificação, a salvação. Não é por ser moralmente correto e eticamente coerente que tenho a garantia do amor de Deus, ou seja, a salvação. Às vezes a gente se encontra com cristãos arrogantes, que se acham mais merecedores ou mais próximos da salvação, porque não cometem certos “deslizes” que os outros cometem. Usam a Lei num sentido que, para os cristãos, está superado. De novo, não é que vale tudo (que posso viver uma vida desregrada, destruir a natureza, prejudicar o próximo e tudo bem!), mas trata-se de reconhecer como fé aquilo que Cristo realizou na cruz.
Vamos, então, aos três usos da Lei:
- para salvar;
- para condenar;
- para acusar. Este é o sentido da Lei que teve seu fim, seu objetivo em Cristo. Não está abolida, mas não tem poder salvífico. Ela só pode me confrontar com minhas contradições e me levar à reforçar a fé, para não me derrubar, não me sentir só ou abandonado. Na medida em que reconheço minhas falhas, que admito que apesar do meu esforço não consigo seguir tudo que seria correto, na medida em que a lei aponta para Cristo, vou sendo libertado das culpas e das cargas. É extrema a angústia das pessoas que querem se salvar pelo seguimento da Lei. A constante busca de perfeição pelo seguimento da Lei gera insegurança e medo para tanta gente. Creio que vocês conhecem pessoas assim.
Nesta época de Quaresma temos um longo espaço de tempo para refletir sobre a salvação. Seu sentido, seu conteúdo, como a recebo, como a confesso e testemunho. “Com o coração se crê para a justiça”. É tempo de examinar o coração, e renovar a relação de liberdade e paz que a justiça de Jesus Cristo traz para nós. Que nós todos possamos aproveitar bem este tempo. Amém.
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